Sábado, 11 de Julho de 2009

Um poema

Gelo com flores

Diziam no café que estava prestes
a ser servido, mas o quê?
A tua nuca? Essas mãos
desamparadas sobre a mesa puída
com nós embaciados de furtivos usos
e conversas engalanadas e malsãs?

 

Não posso dizer que tenho ainda,
sequer neste interior nocturno com abóbadas,
o ímpeto de dor que noutras ruas
à claridade do sul perto do mar
(como eu odeio a claridade, o sul e o seu mar)
me fez sossobrar ao segredo do álcool.
Mas porque não jurar-te - é o crepúsculo -
que certos fogos próximos do fim
ganham duma inércia consumida
o maior poder de cremação.

 

De repente um holofote mais baço
acendeu-se contra o alvo de centro perdido.

Atira o dardo, é a tua vez. Porque esperas?
Queres que seja eu, em tudo, a manejar?
E tu de mãos tão hábeis, o pulso grosso e mesteiral,
o cabelo farpado sobre as sobrancelhas de vinil.

 

Com as calças vermelhas, a camisa de riscas ferozes
e a gabardina abandonada num banco de balcão,
o tocador de alaúde saúda um tempo que passou,
alegra o tumulto contido do salão onde as bebidas,
as refeições ligeiras, os últimos encontros do dia
se preparam para amanhã, para um quase sempre
de entradas e saídas acompanhadas de risos
e olhares onde a ternura se esquiva para a rua.

 

Agora é tarde. Sobe para além da noite
o nevoeiro habitado na comporta
onde correm lamas e a ferrugem
de todas as coisas abandonadas.

Quando sorriste por entre os remos,
a convulsão viscosa dos detritos
cresceu em arbustos vermelhos
com as bagas crepitando na sombra;
e uma rede de pássaros invisíveis
cantou para ninguém, nos cimos,
na flutuação de chamas inesperadas

 

 

Joaquim Manuel Magalhães
As Escadas não têm Degraus
Livros Cotovia
1990

"Grande e influente voz poética, num certo retorno ao "sentido", após o sismo da " máquina lírica" herbertiana, que produziu numerosos epígonos. Também um polémico, erudito e intemerato ensaísta.
Voz amada e odiada por alguns dos seus contemporâneos.
Conto-me no número dos primeiros.
Inês Lourenço."

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publicado por weber às 13:59
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De Logros a 11 de Julho de 2009 às 19:14
Grande e influente voz poética, num certo retorno ao "sentido", após o sismo da " máquina lírica" herbertiana, que produziu numerosos epígonos. Também um polémico, erudito e intemerato ensaísta.
Voz amada e odiada por alguns dos seus contemporâneos.
Conto-me no número dos primeiros.


(...)
"Olhamo-nos e deixamos de nos reconhecer.
Às vezes penso que me sinto muito velho,
a caminho de ficar endoidecido.
Um desses homens de fronteira.
fechados na empena do mundo
com todo o esquecimento da vida
a esfaqueá-lo por detrás.
Um desses a quem apenas falta
que despachos governamentais lhes mijem na cama.

Com isto, vê lá, queria seduzir-te,
leitor, que nunca saberei quem és."


in
Alta Noite em Alta Fraga, Relógio d'Água Ed., Lisboa, 2001


De weber a 11 de Julho de 2009 às 22:41
E, caríssima amiga, aqui cheguei, a esta poesia, pela sua bondosa, segura e competente mão.
Conheci o Joaquim Manuel Magalhães na sua casa, no Logros Consentidos e, ultimamente, tenho-me aventurado neste magnifico poetar.
Obrigado pela revelação e pelos "conselhos".
Abraço,
J.A.


De Logros a 11 de Julho de 2009 às 23:39
J. A,, esqueci-me de dizer que o mesmo JMM é um grande tradutor de poesia. Tem vertido para a nossa Língua muita poesia espanhola actual, incluindo poetas com menos de 40 anos e também gregos modernos.

Quanto aos "conselhos", não percebi ???

Abraço

I


De weber a 12 de Julho de 2009 às 00:02
Os "conselhos" aparecem aqui num sentido amplo e remetem para as suas sugestões de leitura (aqui e no seu blog).
Tão só.
Abraço,
J.A.


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