Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Jorge de Sena

Falou-se tanto de Jorge de Sena, ontem. Hoje, podemos lê-lo. Faz bem à saúde e dá-nos a dimensão de um dos grandes poetas do século XX.

 

Ode ao Destino

 (in Pedra Filosofal

 

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

 

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

 

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são
É nesta mesma rua que eu [as vítimas.
ouço todos os sonhos passar desfeitos.

 

Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

 

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publicado por weber às 19:28
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De Logros a 11 de Junho de 2009 às 21:00
Jorge de Sena, outro génio e camonista emérito. Um espírito à frente do seu tempo e como todos que assim se revelam, espezinhado pelos "bem-pensantes", depois de perseguido e exilado pelo Eixo Santa-Comba-Cereja e respectivos capachos.

Estou a lembrar-me de um poema: "Camões dirige-se aos seus Contemporâneos" e começa assim: "Podeis roubar-me tudo (...)"

Até logo.

I.


De weber a 11 de Junho de 2009 às 22:06
E aqueloutro: "Não quero morrer sem saber a cor da liberdade..."

Até já.

J.A.


De Logros a 12 de Junho de 2009 às 00:25
Esse foi musicado pelo Lopes-Graça.

Ab.
J.


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