Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

A contra-corrente

Por estes dias, meses, quiçá anos, a blogoesfera ganhou uma dimensão, uma qualidade e uma efervescência que condiciona costumes, pensamentos, comportamentos e ainda agendas...culturais, políticas, informativas e opinativas.Em tudo vemos emergir, como lama viscosa que se nos cola ao corpo, de modo impressivo, a nossa "alma" nacional, os nossos mitemas, os nossos traumas, as nossas misérias, os nossos sonhos, os "fumos das Índias", o sebastianismo, o V.º Império e quejandos.

 Creio que, nestes tempos de desconcerto, faz sentido recuperar o "emblema" do Abrupto do JPP, roubado ao Sá de Miranda "... M'espanto às vezes, outras m'avergonho...".

 Releia-se "As Farpas" e percebemos que o patriotismo criticista dos de 70 vale, hoje, o que valia naqueles idos finisseculares (talvez até mais, com a inflação!...): releiam e, depois, ponderem onde estamos como Povo, como comunidade!...

 Jorge de Sena (hoje, um mal amado, mas de obrigatória e sã leitura) disse uma coisa espantosa, daquelas mesmo de espantar!:"Camões soube transformar em obra d'arte o povo mais anárquico do mundo...".

 Do Padre Vieira, dizem os comentadores encartados que foi um enorme cultor da nossa língua ( e do latinório, já agora que aqui estamos), que foi travesso, que brigou nos brasís contra a Santa Inquisição e mais blá, blá e blá...Mas Vieira era, também, Jesuíta (Companhia que foi inventada para dar combate à Reforma de Martinho Lutero e para demandar os Orientes civilizados, e nasceu na nossa muito amada Espanha/Castela...), e era mestiço, e era cultor duma certa "doudice".
Esta nossa mania de só dizer bem - dos defuntos! Este nosso jeito de pintar os defuntos às cores e, os vivos, sempre a P&B!

Disse Vieira: "Todos os que na matéria de Portugal se guiaram pelo discurso erraram e se perderam". Guilherme d'Oliveira Martins disse de Vieira (fora deste afã festeiro..):"A força argumentativa da razão (que tão bem cultivou) havia de se alcançar «com mistura de doudice»."

 Alguém disse (creio que é um aforismo popular):"Depois de mim virá quem bem de mim dirá".

 Nós, portugueses (dum modo geral...), temos um jeito muito peculiar para a intriga, para o maldizer, para a opinião gratuita (sem sustentação, nem argumentário, nem competência, nem informação que nos valha...)- só porque nos apetece, para cavalgarmos a onda,para, como a gaivota, apontarmos, sempre, para onde sopram os ventos.

 Os anarquistas espanhóis, creio que ao tempo da República, nos anos 30 do século passado, tinham um dito, que era todo um programa: "Hay gobierno, soy contra!"

 Neste dito, a nossa costela anarquista aí poderia estar plasmada.

Somos, todos,assim?

Em demanda do Messias, à espera de D. Sebastião, maldizentes, invejosos, vaidosos, incompetentes,videirinhos, malandros, intriguistas,desconcertantes...Claro que não.

Há notáveis vultos, de antanho e coevos que tinham/têm um outro olhar sobre Portugal e os portugueses: D. Dinis, o Infante D.Pedro (filho de D.João I; releiam a sua espantosa carta de Bruges...), D.João II, Afonso de Albuquerque, Damião de Góis, o Marquês de Pombal, Almeida Garrett, Alexandre Herculano,D. Pedro V, Oliveira Martins (quase toda a geração de 70) e, mais recentemente, José Mattoso e Eduardo Lourenço.

 Na ciência e na tecnologia actuais, temos gigantes (Sobrinho Simões, Professor Quintanilha, Lobo Antunes, Casal Damásio, etc). Temos quase 60 investigadores no CERN, na Suiça. Tesmo tecnologia NOSSA nas aeronaves da NASA e no Programa GPS/Galileu da UE...

Muitos mais NOMES poderia listar, mas estes, poucos, servem só para ilustrar a minha "intenção"...

Estamos bem, como País?

Estamos mal, como Povo?

Depende, do que colocarmos antes, como pressupostos, destas perguntas.

Estamos melhor que no tempo de Salazar? Estamos melhor do que antes de termos aderido à CEE?

Sem sombra de dúvidas e em todos os itenes que utilizarmos. Então, ele há um que é mesmo um absoluto: a Liberdade! Eu sou daqueles que não discuto, nem negoceio, este Bem impressivo, inquestionável e de valor inestimável!

Estamos numa curva apertada do nosso devir como Povo e como Nação? Claro que sim.

O que se está a fazer, em nosso nome, está bem feito?

Não sei.

O futuro (uma vez mais, o futuro...) no-lo dirá. A história nos há-de julgar (não só aos governantes, aos actores principais...) mas a TODOS.

Nestes tempos, em que o principio da incerteza, por todas as razões (e mais uma, que não estamos a ter em conta...)domina todos os tabuleiros - da política até às belas-artes, sustento e defendo com genuina crença - que há razões para ter confiança e acreditarmos que, "amanhã" o mundo poderá ser melhor.

Esta crença, paraliza-me?

Nem um pouco.

Dá-me, outrossim, o ensejo e a vontade de ir a contra-corrente, de não me deixar enredar em sonhos por cumprir, ou em projectos oportunistas, ou em derivas de enriquecimento fácil, ou em carreiras políticas ou de poder, sempre coisa éfemera, para justificar escolhas de passado mal feitas, derrotadas ou mal avaliadas.

Hoje, agora mesmo, quero tentar entender, quero saber, quero experimentar compreender, sem preconceitos, sem vendas para...para, modesta ambição, SER MELHOR COMO HOMEM, e em cada dia que passa.

Quero procurar a VERDADE, em qualquer situação (coisa pequena!...) e a luz que ilumina e nos pode guiar pelos trilhos da humana Humanidade.
J. A.

PS-Texto actualizado, a partir de um outro, que já levava quase um ano.


publicado por weber às 19:05
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De Logros a 12 de Junho de 2009 às 01:56
Ó amigo J. A., belo e ambicioso discurso em termos de expectativas humanistas.
"A verdade do momento" é quase esoterismo...
Nas minhas deambulações místico-filosóficas, tive em tempos um "mestre", em pensamento oriental, que também falava na "verdade do momento". Você, agora, trouxe-me essa lembrança.

Passando à "Cultura Portuguesa" só queria dar duas achegas, da minha modesta experiência:

- O Luís Vaz, no canto X, diz:

"Não mais, Musa, não mais,que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida,
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza."


(Canto X, EST. 145)

O nosso Luís Vaz, embore exalte, na forma epopeia, a nossa gente, lá sabia, como diz o povo "a mula que aparelhava" :))))

Quanto ao resto: Geração de 70, 1.º Romantismo (Herculano e Garrett), a má influência tridentina (em que Antero de Quental, fala nas "Causas da Decadência dos Povos Ibéricos", e também da maioria das figuras históricas de que fala, e também a gente do saber actual, estou de acordo. E há muitos mais "grandes portugueses" de que ninguém fala.
No domínio hermenêutico das "artes performativas", conheço gente nova que faz investigação pioneira. Cá e em universidades estrangeiras.

Mas só se ouve falar do Ronaldo e de quem dá mais. Ah, grande Camões!

I.


De weber a 12 de Junho de 2009 às 10:13
Obrigado por me ler e, sobretudo, pela abordagem sempre inteligente que manifesta sobre estes meus exercicios (não direi gratuitos...) "esotéricos".
Foi o sentido exacto - que você lhe emprestou: a verdade do momento!

J.A.
PS- Ele há gente muito néscia a perorar por aí e, alguns, com banca montada na comunicação social, no Parlamento, nas revistas literárias, que não merecem (alguns deles) sequer o AR que respiram.
Lê-la, a si, boa amiga, nestes tempos de mor insanidade é um bâlsamo.
Ler Camões...é ir aos céus e voltar!


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