Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Deste José Pacheco Pereira gosto eu

"Gibbon 

Se há livro de cabeceira - porque, em muitos sítios já não há cabeceira, nem mesinha-de-cabeceira - que me acompanha e que leio e releio ao acaso, sempre com enorme prazer, é a obra de Gibbon Declínio e Queda do Império Romano.

Há neste livro, obra magna de um académico e parlamentar inglês do século XVII (eu creio que é XVIII, mas...), uma escrita sobre a história, as suas personalidades e ventos, tão diferente no que se vê e considera importante que o livro imediatamente - à primeira frase - me retira com proveito do século XX. Flutuando por uma das escritas mais fascinantes da língua inglesa, transportando-me para a história, ou seja, para o que não é do meu tempo. Há nas suas personagens - porque não se trata verdadeiramente de um livro de história, mas de um livro sobre o teatro da humanidade - uma dignidade antiga, que pode ser o teatro da humanidade -, uma dignidade antiga, que pode ser de todos os tempos, menos do nosso. Nós sabemos que é mais feita de ficção do que de realidade, porque também sabemos como já para o olhar de Gibbon também tudo aquilo pareciam «antiguidades».
É verdade que Gibbon estava no século XVIII (cá está, o século correcto...)a falar sobre os «Romanos», ou seja, sobre cerca de dois mil anos de história ocidental, e a nossa cabeça actualmente vive em 30 ou 40, e a nossa cultura mediática vive quanto muito ao ano, quando não é à semana. É verdade que, escrevendo essencialmente sobre o período do «declínio», Gibbon fala dos últimos mais de mil anos que vão dos Antoninos à queda de Bizâncio.
Mas já repararam que, habituados que estamos à precariedade do nosso tempo e à sua rapidez, é muito tempo? Que ainda havia «romanos», que por acaso eram gregos, quando se iniciaram os Descobrimentos? E que só passaram seiscentos anos - quase nada - desde que Constantino Paleólogo participou na última missa na Catedral de Santa Sofia, um ou dois dias antes de se tornar mesquita e ele desaparecer para sempre, talvez adormecido numa das muralhas da cidade? E já repararam que menos tempo nos separa da entrada triunfante de Maomé II - de quem Gibbon diz que, para além do turco, falava árabe, persa, caldeu, latim e grego - na cidade de Constantino do que os mil anos que tinham passado desde que os bárbaros entraram em Roma?
Em muitas páginas do Declínio e Queda, a nostalgia pelo passado, não com saudade - porque Gibbon sabia que esse passado era pior do que o seu presente -, mas como meditação sobre o tempo, é o principal pano de fundo onde se movem as personae. Mas o tempo, ou a história, se se quiser, é o principal actor quando Gibbon relata um diálogo ocorrido, no século XV, entre o «douto Poggio» e um amigo, dois romanos modernos, membros da cúria papal, que sobem ao monte Capitolino e contemplam as «ruínas de Roma». No meio do matagal estavam as velhas glórias de Roma, cobertas de vinhas, cercadas por quintais, já parcialmente integradas em construções modernas, para que as sólidas pedras de mármore eram roubadas. Porcos e bois passeavam no Fórum e o lixo cobria os bancos dos senadores. O tempo também a eles pregava partidas: tinham já passado mais de novecentos anos desde a «queda», e eles olhavam o fim do império com maior distância do que a que hoje nos separa deles.
O tempo é enganador quando ultrapassa as nossas vidas, e prega-nos partidas na memória. E nos tempos de «queda» ainda é mais enganador, misturando vencidos e vencedores, locais e batalhas, gente do seu tempo e anacronismos. Gente perdida pelo declínio, fora da sua terra e do seu tempo, resistindo a uma história impiedosa, como essas mulheres bizantinas, parentes da melhor nobreza imperial, vagamente recolhidas nos conventos quando escapavam de ir parar a algum harém, tentando publicar livros em grego, manter a sua fé ortodoxa, salvar as relíquias de uma opulência passada, quando não resgatar os filhos e parentes, reféns do sultão ou de qualquer potentado menor da Sérvia ou na Trebizonda.
No Declínio e Queda são o tempo e a dignitas que me atraem, a maneira nobre e desprendida, com todas as qualidades, defeitos e paixões, como esses homens feitos em pó, sepultados não se sabe onde, passearam o seu amor pelos homens, pela história, pelas letras, pela lei, pelo vinho, pelas mulheres, pelos rapazes, pela música, ou mais comummente pela crueldade. Porque aqui a dignitas é também o tempo, porque a gente percebe logo que se trata de virtudes dos «antigos», que também já não há hoje, porque todos os tempos, menos o nosso, são clássicos. E era certamente o que Gibbon também desejava: em plenas luzes, descreveu uma história com demasiadas trevas, as do tempo que já passou
."

Notabilíssimo texto de José Pacheco Pereira, retirado sem autorização, mas com a devida vénia, de "Desesperada Esperança e outros textos", dado à estampa pela notícias editorial, no ano de 1999.

José Pacheco Pereira fala de uma notabilíssima obra do inglês Edward Gibbon, editada em inglês em 1776 e traduzida para o francês pelo célebre e celebrado M.F.Guizot. Republicada, em 1983, em dois grossos volumes, pelas edições Robert Laffont e ainda hoje de leitura obrigatória, para quem pretenda, ou queira, entender o que foi, e como foi, a queda do Império Romano do Ocidente, sobretudo, porque esta obra versa também sobre a queda do outro, do Bizantino, do Império de Oriente.

 

J. Albergaria

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publicado por weber às 18:33
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