Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Um génio: Mario de Sá Carneiro

SERRADURA

 

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

 

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

 

Pois é assim; a minh’Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

 

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o ‹‹Matin›› de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo!

 

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

 

Folhetim da ‹‹Capital››
Pelo nosso Júlio Dantas ―
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…

 

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

 

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me percate,
É capaz dum disparate,
Se encontra uma porta aberta…

 

Isto assim não pode ser…

Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

 

O que era fácil ― partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

 

A gritar: ‹‹viva a Alemanha››…

Mas a minh’Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade.

 

Vou deixá-la — decidido ―
No lavabo dum Café
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

 

(Mário de Sá-Carneiro)

Paris 1915 — Setembro 6

 

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publicado por weber às 11:06
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