Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

poesia

O afilhado

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
Os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de control e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.

O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio ecléctico,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Que deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são…
O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de cairo para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.

− E ganhas?... − lhe pergunto.
− Vinte paus, meu Padrinho.
«E não posso beber vinho:
«Nem um copinho,
«Meu Padrinho!»

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
«Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme…»
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.

Patético, hein?
Mas − mudemos de assunto.

 

(Vitorino Nemésio)
in «Limite de Idade», Colecção Auditorium Lisboa, 1972

 

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publicado por weber às 00:42
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