Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Da Poética

José Malhoa. "Praia das Maçãs (À beira-mar), 1918 Museu do Chiado

 

Surripiei a um blogue que descobri hoje, este belíssimo poema.

 

Não Fora o Mar!

Não fora o mar,

e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite
a lua, calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

(Fernanda de Castro)
*

(in «Trinta e Nove Poemas», 1941)

Da autora, o poema
[África Raiz], numa edição de Dezembro de 1966, considerado «O poema do século!» por José Carlos Ary dos Santos.

 


publicado por weber às 17:47
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